O PODER DESCOLONIZANTE DA FICÇÃO AMERÍNDIA CONTEMPORÂNEA
Eloína Prati dos Santos - UFRGS
Quando esses dois irmãos da tradição do povo Tikuna, que se chamam Hi-pí – o mais velho ou o que saiu primeiro – e Jo-í – seu companheiro de aventuras na criação do mundo Tikuna –, quando eles ainda estavam andando n aterra e criando os lugares, eles iam andando juntos, e quando o Jo-í tinha uma idéia e expressava essa idéia, as coisas iam se fazendo, surgindo de sua vontade. O irmão mais velho dele vigiava, para ele não Ter idéias muito perigosas, e quando percebia que ele estava tendo alguma idéia esquisita, falava com ele para não pronunciar, não contar o que estava pensando, porque ele tinha o poder de fazer acontecer as coisas que pensava e pronunciava. Então Jo-i subiu num pé de açaí e ficou lá em cima da palmeira, bem alto, e olhou longe, quanto mais longe ele podia olhar, e o irmão dele viu que ele ia dizer alguma coisa perigosa, então Jo-í falou: “Olha, lá muito longe está vindo um povo, são os brancos, eles estão vindo para cá e estão vindo pra acabar com a gente”. O irmão dele ficou apavorado porque ele falou isso e disse: “Olha, você não podia ter falado isso, agora que vocês falou isso você acabou de criar os brancos, eles vão existir, pode demorar muito tempo, mas eles vão chegar aqui na nossa praias.
Ailton Krenak[1]
Os brancos foram criados em nossa floresta por Omama mas ele os expulsou porque temia sua falta de sabedoria e porque eram perigosos para nós. Elelhes deu um aterra, muito longe daqui, pois queria nos proteger de suas epidemias e de suas armas. Foi por isso que os afastou. Mas esses ancestrais dos brancos falaram a seus filhos dessa floresta e suas palavras se propagaram por muito tempo. Eles se lembraram: “È verdade! Havia lá, ao longe uma outra terra muito bela!”, e voltaram para nós.
Davi Kopenawa Yanomami[2]
O primeiro conto de Thomas King que li foi “Aquela sobre coiote indo pro oeste”, da antologia Toda a minha família, organizada por ele mesmo[3]. Seu conto e um de Harry Robinson se destacam na coleção pelo humor fora do comum, pelos ritmos narrativos que capturam o leitor imediatamente.
O conto de King fala de uma coiote que, enquanto viaja para o oeste, faz paradas para visita amigos, conversar e beber chá, para contar histórias sobre Cristóvão Cartier e Jacques Colombo, e comentar seus erros e suas intervenções no mundo. Enquanto Coiote coloca pedras, curvas, corredeiras e quedas d´água em rios antes retos, penhascos escarpados em uma montanha cheia de árvores frutíferas, Erro da Coiote (uma outra personagem) pega um catálogo e começa a produzir, como se oriundas da cartola de um mágico, torradeiras, computadores com monitor colorido. Aspiradores de pó, lençóis em tom pastel, churrasqueiras portáteis, pois, afinal, pois, afinal, “os índios vão mesmo precisar destes trecos”. Além do humor escrachado, o leitor é envolto pelos deliciosos ritmos característicos do bom contador de histórias. Eles soam como histórias eu costumava ouvir na imensa cozinha da casa do meu avô, contadas pela cozinheira negra, fantásticas histórias que meus livros infantis não continham, saídas não sei de que tradições e terras, e povoadas de seres fantásticos. No mundo de King me encontro nesse mundo estranho tornado confortável por essa cativante voz narrativa:
Essa é sobre a Coyote. Ela tava indo pro oeste. Visitar a família. Isso é o que ela diz. É preciso se cuidar com aquela ali. Matreira. Cheia de truques. Não, não, não, aquela ali diz. Tô só visitando. Vou ver o Corvo. Cara, eu digo. Esse é outro matreiro.
Coiote passa pela minha casa. Abana o rabo. Faz aqueles barulhinhos de felicidade. Senta na minha varanda. Olha em volta. Com aqueles dentes. Com aquele sorriso. Coiote põe o focinho no meu chá. Meu chá dos bons.[4]
Imediatamente recordo palavras de Larry McCaffery sobre um outro autor[5], e as trasnfiro para a obra de King: “... ele criou em suas ficção uma terra e um povo ao mesmo tempo mais reais e mais mágicos do que os estereótipos que se firmaram em nossa consciência nacional”[6].
Não tenho a intenção de construir uma caixinha onde jogar a ficção altamente original de Thomas King, ou de impingir-lhe qualquer rótulo ao ressaltar algumas de suas qualidades mágicas. Pelo contrário, uso conceitos do mágico-realismo latino americano porque eles nos permitem olhar com familiaridade e naturalidade muitas experiências pós-coloniais, não só aqui nas Américas, como na África, Austrália e Nova Zelândia. A mágica constitui um aspecto significativo das culturas nativas antes dos processos de colonização e permanece como um traço marcante das culturas híbridas pós-coloniais, contaminando, inclusive, a cultura do colonizador. A mágica também pode explicar diferenças de visão do mundo, das relações familiares e comunitárias, entre tantas outras. Mágica, no caso de King, lhe permite “consertar a história” oficial que exclui os mitos fundadores das culturas dos povos nativos da América do Norte, ao mesmo tempo em que lhe permite integrar essas duas narrativas colocadas em choque durante o processo de colonização, e devolvê-las, processo de hibridação exposto, narrativas familiares, contadas em ritmos familiares, tornando-as poderosas e competitivas ao lado das outras tantas versões dos mesmos encontros.
A figura da Coiote, por exemplo, é muito útil para destroçar as rígidas dicotomias cristãs de bem e mal. O Coiote é em geral um ser amoral, um tipo de coringa, de pequeno feiticeiro, com poder de criar e destruir, distorcer e alterar suas formas e as do mundo ao seu redor. Há inúmeras variações da figura, mas a maior parte das mitologias o representa como parte homem, parte animal, uma vez que ele tem a aparência do animal mas o poder de transformar-se em seres humanos ou quaisquer outros animais. Ele também pode ser macho ou fêmea, quebrando até a barreira do gênero. Coiote, por vezes, é muito esperto e espirituoso, outras, bobo e irritante. Sua figura é das mais instáveis entre as criaturas mitológicas e por isso um personagem perfeito para narrativas que usam linhas rítmicas emprestadas da tradição oral. Os historiadores populares em geral se repetem, alteram versões de histórias conhecidas para nelas incorporar elementos históricos e experiência pessoal, como sonhos e até desejos. A contaminação do conto e do romance contemporâneos com formas agráficas, não cristãs, de ver o mundo também contribuem para a dissolver noções de que as culturas que produzem seus registros por escrito são superiores às de tradição oral. O próprio King comenta:
O que eu aprendi com os contadores de história – com a oralidade – foi que estes contos ajudam a criar um universo fantástico em que qualquer coisa pode acontecer. Você é livre para criar o que bem entender. O que é em geral liberador da mesma forma, imagino, que o realismo mágico ou o surrealismo são liberadores.[7]
Thomas King retrata os nativos como homens e mulheres contemporâneos, situados no mundo em diversos graus de proximidade ou distância de suas culturas ancestrais, e que exibem uma variedade de reações a outros nativos e suas escolhas de vida. Índios mais ou menos bem sucedidos na vida e em seu engajamento com as duras realidades do capitalismo tardio do hemisfério norte, que se relacionam com não–nativos em diversos níveis de tolerância. King apresenta, portanto, um mundo indígena tão complexo e variado como qualquer outra sociedade humana, abandonando por completo modelos estereotipados concebidos para eles que, por serem perpetuados por filmes, narrativas de ficção, e outras expressões culturais, resistem em nos deixar. A noção européia cristã de índio, com a qual ainda funcionamos, não abriga a grande diversidade de línguas, costumes, e graus de assimilação que King nos apresenta. Na introdução a Todos os meus familiares, ele menciona “puros-sangues criados na cidade, mestiços criados em fazendas, quarteiriços criados em reservas, índios adotados e criados por famílias brancas, índios que falam suas línguas tribais, índios que falam só inglês, índios educados à maneira tradicional, índios formados em universidades, índios com baixa escolaridade, e outros....”[8]
King declara praticamente impossível alcançar uma definição que contemple tudo isso, mais não nativos que possuem conhecimento, experiência e são comentaristas sensíveis da vida indígena, bem como alguns adotados e criados em aldeias indígenas. Para encerrar a discussão, ele cita Black Elk: “... a palavra índio em si não significa nada. Por isso que ninguém sabe nada sobre índios”.[9]
King é um índio Cherokee, parte grego e alemão pelo lado do pai, um doutor em literatura, um escritor de sucesso que injeta em sua ficção tanto narrativas tribais ancestrais como os mais atuais conceitos teórico-literários, como o feminismo e o pós-colonialismo. Mas com um foco inconfundivelmente indígena porque, como ele explica, “É possível tornar-se canadense, ou um escritor canadense, por exemplo, sem ter nascido no Canadá, mas ou se nasce índio ou não.”[10]
E por isso é melhor ler King, ouvir seus personagens, seus narradores moldados nos contadores de história tribais, do que tentar exercícios intertextuais sobre sua obra. Creio que ao escolher sua tradição indígena, a predominante em sua história pessoal, justapondo a ela uma visão crítica da vida nativa contemporânea, Thomas King visa alistar leitores, nativos e não nativos. Uma leitura intertextual de suas histórias acabaria por, mesmo que inconscientemente, reforçar a superioridade das culturas escritas sobre as agráficas e o sucesso dos processos de colonização.
A oralidade é dinâmica e constantemente mistura experiências pessoais e fatos novos aos mitos tradicionais, enquanto as versões escritas tendem a enfocar o reforço de sua própria cultura em detrimento da incorporação ou mesmo adaptação de outras culturas. Hoje em dia praticamente toda a literatura oriunda de estados com um passado colonial são híbridas em seus temas e suas formas. Isso me faz lembrar Genette e sua preferência pelo termo transtextualidade no lugar de intertextualidade. Leituras intertextuais que se detêm nas passagens exatas da Bíblia ou de Melville que King usa e como ele as altera (conserta), tendem a empobrecer a leitura desta ficção extremamente original e rica e, principalmente, tendem a considerá-lo um mestre da intertextualidade por ser um índio educado e parte do mundo acadêmico, que ele também é. Mas ele usa esse trânsito pelas duas culturas para nos empurrar para mais perto da cultura indígena, não o contrário. Ele nos mostra que foi exatamente esta flexibilidade da tradição oral, que permitiu a apropriação dos elementos cristãos europeus a eles impostos, que permitiu sua sobrevivência. A inclusão desses elementos em suas narrativas possibilitou aos índios o alargamento de sua cultura para incluir a nossa e o conseqüente alargamento da nossa cultura também, quando nós o permitirmos. “A ´transcrição´ de formas narrativas tradicionais para o inglês,” King nos aponta, “abriu novos mundos imaginativos para uma audiência não nativa”. E esta audiência não nativa tem, relutantemente, se aberto a imaginários que destroçam suas pretensões hegemônicas raciais e culturais.
Como Arnold Davidson sugere, “Em `Good story`, do King, o narrador nativo e marginalizado domina as narrativas do mestre/mestras suficientemente para recontá-las com uma finalidade diversa”.King, ele continua, “favorece histórias múltiplas, multivocais e antihegemônicas”. Donaldson também insere a narrativa de King em uma tradição absolutamente contemporânea, tanto do ponto de vista literário quanto crítico, evidenciando o quanto isso alarga as possibilidades da narrativa ocidental tradicional:
Evidenciada pela ausência, através da freqüente indireção do discurso nativo – “essa”, “aquela ali”, -- (transcrito em inglês neste caso), tanto é quanto não é a nomeação desta história sobre a história que também é sobre Coiote, ela mesma uma contadora de histórias. Como no título, também no conto. A narrativa ressoa com os ritmos da oralidade __ repetições de sons e de palavras, uma abordagem retórica pática, o som poético da sintaxe falada – e é, ao mesmo tempo, tão pósmoderna e tão paródica e auto-reflexiva como qualquer coisa escrita por Robert Kroetch ou merecedora da atenção de Linda Hutcheon. Uma nova história muito velha, na verdade. Mas esta é a própria natureza da melhor das histórias. Várias boas histórias.[11]
A história da Coiote que viaja para o oeste reaparece no livro a que Donaldson se refere, Um boa história, essa aí (One good story, that one). Neste livro podemos ver a perfeição da técnica narrativa de King. Temos várias histórias muito engraçadas, habitadas por coiotes, pombos selvagens, Colombo, guardas alfandegários, onde nossa imaginação e nossos códigos de leitura caem em vários truques. Vamos ouvir algumas dessas vozes:
Tudo bem
Cê sabe. Eu escuta essa história lá pelo norte. Quem sabe em Yellowknife, aquela, quem sabe noutro lugar. Eu a escuto por muitos anos, quem sabe. História velha, essa. Cem anos. Quem sabe mais. Quem sabe nem tanto, essa história.
Então.
“One good story, that one”
Essa é sobre vovó. História de reserva. Todo mundo sabe essa. Wilma sabe essa. Ambrose sabe. Lionel James. Billy Frank sabe essa também. Billi Frank ouviu essa em Calgary. Ele ouviu essa três vezes. Quem sabe seis. Cara, ele me diz, aí vem essa história outra vez.
Às vezes a história é sobre Wilma. Uns contam de modo que Ambrose está em todos os cantos. O jeito que eu conto é o jeito que eu conto e eu sempre conto ela desse jeito.
Às vezes eu conto sobre os pombos selvagens primeiro. Com aqueles narizes. Bons narizes aqueles. Pombos selvagens falam o tempo todo, cê sabe. Fofoqueiros aqueles ali. Hahahahaha. Boas piadas também. Às vezes eu começo assim. Outras vezes eu começo assado.
Okay. Aí vai aquela história de novo.
“Pombos Selvagens” (“Magpies”)
Cê sabe, Coiote passou na minha casa outro dia. Ela ia a uma festa. Ela estava com um chapéu de festa e ela estava com um apito de festa e ela estava com um chocalho de festa.
Estou indo a uma festa, ela diz.
Sim, eu digo, dá pra ver.
É uma festa para o Cristóvão Colombo, diz Coiote. Aquele que encontrou a América. Aquele que encontrou os índios.
Cara, aquela coiote é uma coiote muito burra. È preciso se cuidar com ela. Algumas das histórias daquela coiote tem rabo e algumas das histórias daquela coiote estão cobertas de pele eriçada, mas todas as histórias daquela coiote são tortas.
“Uma história de coiote sobre Colombo” (“A Coyote Columbus story”)
Nestes três pequenos exemplos já fica evidente que nossas idéias sobre a cultura indígena são “sonhos de coiote bobo” e que estaremos caindo em truques narrativos que nos revelarão a magnitude de nossa ignorância. Mas isso será feito com muito humor, à maneira de brincadeiras entre amigos. Um humor pesado, por vezes, mas democraticamente dirigido aos dois lados da divisão racial, é o recurso que nos permite a melhor visão de nosso racismo residual.
Os narradores de King, espirituosos, engraçados, sábios, possuem um estilo que nos absorve e ao mesmo tempo em que atua para diluir nossas resistências a abandonar os índios monossilábicos e enigmáticos que povoam o imaginário popular não-nativo (aqui temos Uga-Uga Global para provar que continuam bem vivos).
Como esclarece King em uma entrevista, “Eu [também] tento fugir do dialeto. O dialeto cria centros e então, ao invés de criar dialetos, tento reordenar minha sintaxe. Isto é, eles têm uma forma competente de expressar seus pensamentos, de narrar suas histórias de forma articulada quer não necessita de tradução para um inglês gramatical ou dialeto de pé quebrado”.[12]
Em seu romance Grama verde, água corrente (Green grass, running water), de 1993, King desenvolve completamente sua original forma narrativa, usando essa sintaxe alternativa, com características da performance oral e de uma eficácia contundente, para “consertar” as grandes narrativas cristãs brancas da América do Norte.
Na parte mais mágica do romance, temos quatro velhos índios Blackfoot e uma coiote como personagens centrais. Os índios – The Lone Ranger, Ishmael, Hawkeye e Robinson Crusoe, tentam, cada um contribuindo com sua versão, acertar a “verdadeira” versão da narrativa da criação do mundo, começando e recomeçando, corrigindo uns aos outros, fazendo muitas piadas sobre suas fracas memórias. Enquanto narram, vagueiam por reserva indígena da Província de Ontário e seus arredores, fazendo pequenos “consertos” no mundo e nas relações com que se deparam. Esses bruxos ancestrais são sempre seguidos de uma coiote muito boba, que canta e dança tentando chamar a atenção, causando algum desastre, de uma forte chuva a uma grande inundação.
A palavra mais constante nas tentativas de narrar a criação do mundo é “erro”. Os índios começam uma história e logo param para corrigir os erros, a grande metáfora cômica que King usa em muitas de suas ficções: consertar a narrativa, (fixing the tale). Não se deve cometer erros com uma história, advertem os índios velhos, porque eles podem “pegar”. Como no caso de Lionel (um dos três membros do triângulo amoroso da parte mais realista do romance), que é levado a um hospital para ter suas amígdalas removidas, quando criança, e por um erro médico, é registrado como paciente cardíaco. O registro nunca é removido e isso causa muitos problemas, principalmente em relação à sua capacidade de conseguir bons empregos.
Voltando à parte mágica do romance, nos deparamos com histórias bíblicas e encontros com personagens de Melville, Cooper e Defoe, entre outras, que, recontadas pelos quatro velhos, rendem boas gargalhadas. Vou citar apenas dois pequenos trechos sobre encontros de Primeira Mulher (personagem central destas narrativas, e que vai se transformando em Mulher Mutante, Mulher Velha, e outras) com Deus e Noé.
Cria-se o mundo com Primeira Mulher e Coiote jogando no dorso da Avó Tartaruga um barro que cresce e fica lindo. Tão lindo eu só falta um jardim, que é então criado. Criado o jardim, Primeira Mulher passa a residir aí com Ahdamn (um jogo de palavras hilário, que pode ser traduzido mais ou menos por Ahdroga), “e tudo é perfeito, e tudo é lindo e tudo é chato.” Até que surge uma árvore falante.
“Com licença”, diz aquela árvore, “quem sabe você gostaria de algo para comer?”
“Obrigada, seria bom”, diz Primeira Mulher, e todo tipo de coisas boas caem daquela árvore. Maçãs, caem da árvore. Melões caem da árvore. Bananas caem da árvore. Cachorros-quente. Pão frito, milho, batatas. Pizza. Galinha frita extra crocrante.
“Obrigada”, diz Primeira Mulher. Ele pega toda aquela comida e leva para Ahdamn.
“Árvores falantes! Árvores falantes!”, diz aquele DEUS. “Que mundo é esse!” “Espera aí”, diz aquele DEUS. Este jardim é meu. Esses trecos são meus.
“Que maus modos”, diz Primeira Mulher. “Você se comporta como se não tivesse família. Aqui, toma um pedaço de pizza.”[13]
Deus é representado como um velho rabugento e seu nome é sempre escrito em letras maiúsculas para lembrar ao leitor que, ao contrário, lê cão (em inglês, é claro: GOD/DOG), uma clara referência à figura da Coiote, com poderes para criar mas que também pode ceder a fantasias ridículas. Não devemos esquecer que a história toda, com sua ampla gama de tradição ameríndia e cristã devidamente mesclada, com personagens ameríndios e mestiços convivendo com brancos e com figuras míticas como o coiote os velhos ancestrais tribais, nada mais é do que “um sonho de coiote”, o que em inglês chamamos de “tall tale” e que corresponde à nossa conhecida história de pescador.
O outro exemplo é o encontro de Mulher Mutante com Noé. Tendo caído do céu dentro da arca e em cima da coiote, ela se confronta com o patriarca:
“Quem é você?”, diz o homenzinho
“Sou mUlher mUtante”, diz Mulher Mutante.
“Alguma relação com Eva? Ela pecou, você sabe? Por isso estou nesta canoa cheia de animais. Por isso estou nessa canoa cheia de cocô.”
“Você esta bem, Coiote?”, pergunta Mulher Mutante.
“Porque você está falando com os animais? Este é um navio cristão. Animais não falam. Temos leis aqui.”
“Eu caí do céu, diz Mulher Mutante. Sinto muito Ter caído em cima da coiote.”
“Do céu? Aleleuia! Um presente do céu. Meu nome é Noé, você deve ser minha nova esposa.”
“Duvido”, diz Mulher Mutante.
“Deixa eu ver seus peitos”, diz Noé. Gosto de mulheres com peitos grandes. Espero que Deus tenha se lembrado.”[14]
Com seus índios espertos e bem humorados, com uma história rica em tradições e experiências pessoais, revelam, por um lado o quão irremediavelmente contaminadas estão ambas as culturas, a ameríndia e a branca cristã, nosso dia-a-dia e nossos destinos entrelaçados em uma única família humana, embora seus grupos tenham visões de mundo e crenças diversas. O dinamismo da cultura oral expõe o ridículo de uma cultura excludente e com pretensões hegemônicas, alargando o espaço narrativo para incluir muitas versões da história da humanidade que “consertem” aquelas contidas nos grandes livros brancos.
Das selvas brasileiras, conforme nos contam o Tikuna e o Yanomami, bem como Vale do Silkanem e seus Okanagans, nos chegam relatos de homens brancos e vermelhos concebidos como irmãos, embora de naturezas e feitios diversos, mas com histórias que se cruzam desde a origem. O poder descolonizante da literatura ameríndia contemporânea reside tanto nesse alargamento da narrativa como em uma lição de leitura do mundo e da natureza como uma grande família, um único, gigante e delicado equilíbrio ecológico e humano.
Por isso encerro citando as palavras de King na introdução de sua antologia Toda a minha família:
“Toda a minha família” é um primeiro recado sobre quem somos e de nossa relação com nossa família e nossos parentes. Também é um lembrete sobre a extensão desse relacionamento que partilhamos com todos os seres humanos. Mas as relações que os povos nativos vêem vai mais longe, a rede de relações estendendo-se aos animais, aos pássaros, aos peixes, às plantas, à todas as formas animadas e inanimadas que podem ser vistas ou imaginadas. Mais do que isso, “toda a minha família! É um encorajamento para que aceitemos nossas responsabilidades dentro dessa família universal ao viver nossas vidas de forma harmoniosa e moral (uma reprimenda comum é dizer para alguém que ele está agindo como se não tivesse família).[15]
[1] Adauto Novaes, Org. A outra margem do ocidente. São Paulo: Minc-Funarte, Companhia das Letras, 1999, p. 26-27.
[2] Ibid., p. 18.
[3] Respectivamente: “The one about Coyote going west” e All my relations. Não há traduções para o português das obras de Thomas King, portanto tanto as traduções dos títulos das obras quanto as citações foram traduzidas pela autora para este trabalho.
[4] “The one about Coyote going west”, All my relations, Ed. Thomas Ki ng, Toronto: McClelland and Stewart, 1900, p. 95.
[5] McCaffery refere-se a William Eastlake, escritor estadunidense que usou como tema e cenário de seus romances as reservas Navaho do Novo México.
[7] “Coyote lives”, Entrevista com Jeffrey Canton, The power to bend spoons, Ed. Beverley Daurio, Toronto: The Mercury Press, 1998, p. 95.
[8] All my relations, p. x-xi.
[9] Ibid., p. xi.
[10] Ibid., p. x.
[11] Arnold Davidson, Coyote country: fictions of the Canadian west, Durham e Londres: Duke University Press, 1994, p. 35.
[12] “Entrevista com Thomas King”, Constance Rooke, World literature written in English, Vol.30, No.2 (1990), p. 73.
[13] Thomas King, Green grass, running water, Toronto: Harper Collins, 1993, p. 40-41.
[14] Ibid., p. 145.
[15] All my relations, p. ix.